Milhões assistiam, mas poucos faziam ideia de que estavam a observar o começo de uma revolução. Era o ano de 2015 e a SpaceX, de Elon Musk, acabava de fazer história ao aterrar um foguetão pela primeira vez. Quatro anos depois, em 2019, esse mesmo modelo de foguetão, o Falcon 9, transportava para a órbita da terra os primeiros satélites do programa Starlink com uma promessa ambiciosa: levar internet de alta velocidade a qualquer canto do planeta.
Hoje é muito mais do que isso. Para uns representa uma nova esperança de acesso ao mundo, para outros é uma questão de vida ou morte. E isso está a deixar muita gente nervosa, um pouco por todo o mundo. E o perigo da dependência é real, com os especialistas a alertarem que países inteiros correm “um risco muito elevado” de ficar reféns da empresa de um homem que tem mais de metade dos satélites em órbita e acaba de entrar no círculo restrito da política americana.
“É motivo para o mundo ficar preocupado, incluindo para nós na Europa. O que é que acontece a uma sociedade se decidir investir tudo em Elon Musk? É dar o poder a um indivíduo de cortar o sinal a uma nação com quem ele não concorda politicamente. Hoje ele luta pela nossa causa e amanhã pode lutar por outra causa”, alerta o especialista em cibersegurança Nuno Mateus-Coelho, em entrevista à CNN Portugal.
Nos corredores de Bruxelas o receio tornou-se palpável. Principalmente após a recente explosão de influência política do dono da SpaceX nos Estados Unidos. Elon Musk, o homem mais rico do mundo, tornou-se um dos principais doadores financeiros da campanha de Donald Trump e acabou por ser nomeado pelo candidato republicano para chefiar um novo corpo do governo destinado a “limpar” as regulações americanas: o Departamento para a Eficiência Governamental.
Só que esta combinação de poder político com um monopólio da economia espacial que depende de contratos bilionários com a NASA está a fazer com que muitos na Europa temam que o bilionário venha a ter poderes comparados ao de um país. Ao mesmo tempo que a proximidade a Trump, a quem Elon Musk doou mais de 134 milhões de euros para a sua campanha, levanta questões acerca de um possível conflito de interesses que pode resultar num círculo vicioso de favores políticos e vantagens regulatórias, os especialistas alertam para o perigo da rede Starlink ser utilizada como ferramenta de política externa americana, prejudicando países rivais ou críticos.
“O futuro mostra que a tecnologia de comunicações mais robusta é a de satélite. Só que isso tem perigos e um deles é entregar tanto poder para as mãos de uma só pessoa, que passa a ter o poder de bloquear o acesso a uma nação inteira. Dezenas de países, exércitos e populações estão a ficar dependentes desta tecnologia. O que acontece se Musk fechar a torneira?”, questiona o especialista em cibersegurança Nuno Mateus-Coelho.
Fonte: CNN Brasil