Almir Lemos iniciou sua trajetória com o barro ainda na infância, ajudando seu pai nas olarias de Maragogipinho, na Bahia. Contudo, foi apenas em 2022, após um acidente que exigiu diversas cirurgias, que ele retomou com intensidade a prática de trabalhar com o material. E, agora, vê suas criações ganharem destaque no mercado de artesanato da Bahia.
A técnica de Almir exige um cuidado específico: suas obras são frágeis e precisam ser tratadas com delicadeza, já que o barro que utiliza não passa pelo processo de cura tradicional. O trabalho com esse material necessita de atenção constante e uma compreensão das propriedades naturais.
Durante o período de recuperação, ele se dedicou a um processo profundo de imersão na arte do barro. Nesse tempo, Almir revisitou de maneira intensa a prática tradicional. Ele observou que, antes da invenção do torno — ferramenta essencial para o trabalho atualmente — o barro era trabalhado de forma mais primitiva e natural. O torno, utilizado para girar o barro e modelar formas simétricas e uniformes, serve para amassar e homogeneizar a argila, o que retira parte de sua textura e variação natural de cores. O artista percebeu que, ao não usar o torno, poderia preservar as cores e características originais da matéria-prima, como aquelas adquiridas naturalmente pela interação com a terra e o tempo, como a queda de uma árvore ou o movimento do solo.
“Eu queria entender como o homem começou a trabalhar o barro antes de existir o forno. Isso me levou a morar na olaria e trabalhar de forma bem simples, de um jeito primitivo, quase como se estivesse voltando ao início de tudo”, contou o artista em entrevista ao BN Hall.
O processo criativo de Almir não segue as convenções. Em vez de utilizar ferramentas mecânicas, ele preferiu criar suas próprias ferramentas e respeitar as características naturais do barro. “O barro não precisa ser homogêneo como no forno. Quando não é amassado, ele preserva suas cores naturais, que são perdidas quando trabalhado de maneira mecânica”, afirmou.
Ao refletir sobre o impacto do fogo, Almir se deparou com outra questão importante. “O forno também tira as cores do barro, assim como a lagosta muda de cor quando cozida. O fogo transforma, muda as características do barro. Isso me fez perguntar: e se eu trabalhasse com o barro cru?”, questionou.
A coleção Orixás, que surgiu dessa reflexão, busca representar as divindades africanas de uma maneira não convencional, sem recorrer às figuras tradicionais. “Eu queria que as pessoas sentissem a energia do orixá através da peça, não apenas pelo formato. O orixá é um elemento da natureza, não uma imagem”, explica o artista.
A maior parte do trabalho de Almir consiste em vasos e esculturas, especialmente dentro da coleção Orixás. No entanto, ele evita criar imagens tradicionais de orixás, inspirando-se em formas mais ligadas à natureza e aos elementos. “Na África, em algumas regiões, os orixás são cultuados com objetos, como vasos ou madeira. Eu quis seguir esse caminho, mais ligado à essência dos orixás”, comentou.
Fonte: Bahia Noticias